sábado, 31 de maio de 2008

De um blog para outro: Welwitschia mirabilis



Li, num blog que visito regularmente, um apontamento sobre essa extraordinária planta. E recordei dois momentos:o único em que vi algumas welwitschias, no deserto de Moçâmedes e um caule da planta que, durante anos, permaneceu debaixo da mesa da televisão dos meus pais.
Não é uma planta bonita mas esmaga pela sua imponência. As que vi não tinham mais de 1m de diâmetro e talvez meio metro ou menos de altura mas há-as com mais de 1m de altura e mais de 4m de diâmetro. Diz-se que nos caules destas grandes plantas se pode esconder um homem … Será? Diz-se também que em Angola foram mais preservadas do que na Namíbia porque o medo das minas afastou as pessoas do deserto.
A estrutura da planta faz parte do seu fascínio: só tem duas folhas que crescem continuamente de um caule que se vai contorcendo provocando o rasgar das folhas, que, com o crescimento, também se vão esfarrapando – por isso parecem muitas folhas.
Os botânicos incluem-nas num ramo de transição entre as plantas sem flor para as plantas com flor mas as suas “flores” que ainda não são flores têm já estruturas masculinas ou femininas (em plantas distintas). Para atingirem as dimensões que se conhecem, têm uma vida longa – diz-se que as há com 2000 anos. No deserto de Moçâmedes os boschimanes diziam que as maiores tinham 1000 anos …
Muitas pessoas pensam que a Welwitschia por viver no deserto, deve ter folhas carnudas para armazenar água. Nada disso. São plantas que não resistem à seca … Por isso os desertos em que aparecem (Angola e Namíbia) estão junto à costa e as folhas têm estruturas que absorvem a água que se condensa, vinda nos nevoeiros marítimos. E a adaptação é tão perfeita que essas estruturas (estomas), que normalmente só existem na página inferior das folhas, também se desenvolveram na página superior.
Tenho um respeito profundo por estas plantas e acho que nelas está uma parte da minha alma … Não sei porquê. São sentires.

Nota: um caule de welwitschia, seco e envernizado.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Não TER DOM ou Não SABER VER?


Ao longo da vida, tenho deparado com várias pessoas, de diversas idades, que sempre que falamos em desenhar ou em pintar dizem não ter DOM ou não ter jeito.
Esta reacção sempre me intrigou e procurei, ao longo da minha vida profissional, estudar a razão desta descrença.
Tive alunos que, à partida, me avisavam da sua falta de jeito e faziam questão de o revelar na realização dos exercícios propostos. Quando me deram oportunidade de trabalhar, durante dois ou três anos com eles, foi possível desmistificar muito do que a acção cultural e sócio/familiar tinham formado no seu subconsciente. Foi possível ensiná-los a saber “ver” e a perder a utilização sistemática de “só olhar”. E se aprendermos a “ver” estamos a utilizar ferramentas importantíssimas que só desenvolvem as nossas capacidades mentais.
A confusão que se faz na nossa cultura…”desenhar e pintar é para artistas”!
Bebeu-se muito na família, ou nos primeiros professores que, também sem culpa, nos rotularam logo pelo nível da nossa expressão plástica.
Assim, após o ensino básico mergulha-se no esquecimento desta ferramenta , e quem sofre com isso?! - Especialmente o hemisfério direito do nosso cérebro.
O hemisfério esquerdo controla a fala e por ele ser mais rápido com “a sua tagarelice mental” convence-nos facilmente.
O hemisfério direito, atrelado aos sentimentos, é mais lento a reagir, logo é abafado nas suas pretensões.
O poder do lado esquerdo é responsável por manter uma programação mecânica de hábitos, em que se misturam a imaginação negativa, os preconceitos, os medos, as limitações. Enfim, ele mantém uma rede, desenvolvida pela própria mente, tão densa que, às vezes, a verdadeira realidade nos parece oculta e inacessível.
Se desenhar é uma ferramenta própria da linguagem do hemisfério direito, como exercitá-lo, se a maioria das pessoas pensa que a qualidade de desenhar é mágica, e que é um dom que só alguns têm!? O argumento parece contraditório, pois temos o potencial, mas não podemos exercitá-lo. Ocorre algo, assim como ter pernas e não poder andar; frente a esta conclusão devemos procurar outra explicação. Não será outro o segredo? Porque desenhar não é difícil, a questão especial é VER, ou mudar para um modo especial de ver. Ver com os olhos da mente, experimentar conscientemente a utilização do lado direito do cérebro.
Muitos artistas têm feito numerosos depoimentos sobre esta maneira especial de “ver”, que os leva a um estado de consciência em que se perde a sensação do tempo, experimentando um estado de relaxamento. Eles estão vigilantes, porém experimentando uma sensação aprazível e quase mística.

Há uns meses atrás dirigi um trabalho de grupo com pessoas bem crescidas e tive que as colocar na situação prática de desenhar e pintar. Muitas tinham esquecido a sensação de pegar num simples lápis de cor e, frente a uma folha branca, ficaram bloqueados. Passados alguns minutos, tinham ultrapassado a barreira e pareciam putos numa sala de 1º ciclo, felizes por retomar uma sensação esquecida!
Criar, sem intenção de ser artista ou compositor, o desenho, as cores e os sons são mundos a explorar para desenvolver áreas adormecidas do nosso cérebro.
Começar por aprender a “ver”, observar o que nos rodeia com pormenor, as formas mais regulares ou irregulares, a geometria na natureza, na arquitectura, a cor (vários tons que nunca vemos), a expressão de um rosto, de um corpo, de uma árvore, as tonalidades do claro/escuro e os meios tons. Depois, deixar a mão seguir o que a imaginação e a expressão desejam, sem constrangimentos e sem julgamentos…

Nota: voltarei a desenvolver estas questões noutra oportunidade.



quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ementas escolares e não só

Li com agrado que a Câmara Municipal de Lisboa promove uma campanha nas Escolas com pré-escolar e 1º ciclo para que as refeições das crianças sejam mais variadas e nutritivas e também para que as receitas de peixe sejam mais atractivas.

Já idêntica preocupação tinha havido, em Inglaterra, com aulas dadas pelo famoso Jamie Oliver aos cozinheiros das escolas e mesmo aos alunos que reconheceram não ter o hábito de comer refeições confeccionadas em casa, uma vez que os pais não sabem cozinhar. E li também que, em França, um outro mestre de cozinha, Thierry Marx, pretende não só mudar os hábitos alimentares como também o ambiente dos refeitórios escolares: “ loiça, cor das paredes e até o mobiliário que vai incluir mesas altas, tipo bar, onde os jovens podem comer em pé e ecrãs de televisão” …
Assustei-me. Será que os nutricionistas estão de acordo em que é melhor para as crianças comer em pé e, sobretudo, vendo televisão ao mesmo tempo? Comer rápido e sem conversas … Espero que a moda não pegue – para já é só um projecto francês. E este, espero que não chegue cá.

Li na mesma notícia que a RTP1 vai ter um programa para crianças ensinarem a outras crianças como fazer “snacks ”saudáveis - gostava que no programa se dissesse antes sanduíches ou sandes saudáveis … É um começo.
Mas será que não se podia fazer um programa para os adultos reaprenderem a cozinhar refeições fáceis, rápidas e nutritivas? E face às dificuldades económicas que existem e às que se adivinham, porque não ensinar a fazer refeições variadas, equilibradas, com características mediterrânicas e de baixo custo? Seria uma boa aposta de serviço público.
E, já que a obesidade é um dos problemas de saúde mais graves deste século (mais do que a fome, dizem, e custa a crer), não poderiam as Juntas de Freguesia promover cursos presenciais, a custo simbólico, para ensinar a preparar refeições adequadas? Há velhos alimentos tradicionais que foram desvalorizados, há novos alimentos que têm de ser banalizados, há hábitos alimentares que são símbolos sociais e se devem desmistificar …

Se a obesidade e a fome são problemas mundiais há um caminho de informação e aprendizagem que se devia percorrer. E sai mais barato prevenir e defender os cidadãos de virem a precisar do Serviço Nacional de Saúde …

Nota: a notícia que referi foi publicada no jornal Expresso de 17 de Maio.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A SENHORA DO BURRO

As notícias sobre o aumento de preço dos combustíveis e o texto sobre o “Pedibus” fizeram-me lembrar a “ senhora do burro” que conheci nos anos 70 e voltei a encontrar há 3 ou 4 anos.
Em 1974/75, vivi uns tempos na Ericeira e ia todos os dias para Mafra. Numa ida, na curva a seguir ao Seixal, assustei um burrito que levava uma senhora em cima para além dos dois cestos colocados simetricamente em relação ao dorso, já vazios depois da venda no mercado da Ericeira. A senhora caiu e eu vi-me muito aflita para parar o burro, acudir à mulher, ter a certeza de que ela estava bem e ajudá-la a voltar a montar o burro. Para mim já era uma senhora de idade …

Há 3 ou 4 anos, quando passei a fazer compras de fim de semana no mercado da Ericeira, encontrei um burro velhote, preso no cimo de uma ladeira, junto ao mercado. Percorri o mercado para descobrir a dona do animal e encontrei-a. Falei-lhe do atropelamento há quase 30 anos e era ela! Riu-se muito e, sinceramente, não notei que fosse mais velha do que a que minha memória retinha… Disse-me também que o burrito era o mesmo mas estava muito velhinho e já não o podia montar.

Há cerca de um ano, o burro morreu e no mesmo lugar encontrei uma jovem mula, muito pouco paciente. A dona contou-me como estava a ser difícil entender-se com a jumenta. E não teve com certeza tempo para se entender porque há meses, a senhora morreu. E, se já não vejo nenhum burrito levando legumes para o mercado, se calhar, qualquer dia, vão competir no estacionamento automóvel. Gostava!
Que pena a “senhora do burro” não estar cá para ver …


terça-feira, 27 de maio de 2008

DIA EUROPEU DOS VIZINHOS

Hoje o calendário assinala o Dia Europeu dos Vizinhos e eu não podia deixar de «postar» um pequeno apontamento sobre as minhas vizinhas.
Que seria de mim sem elas?

Aqui, no prédio, vive-se diariamente a proximidade, a solidariedade, a cumplicidade, a entreajuda, a companhia, a alegria, a risota, a partilha… tudo bem condimentado com um enorme respeito pelo espaço, pela intimidade, pelos interesses, pela vida e pela alma de cada uma.

Mas também há o bate papo e o cochicho, o emprestar da salsa, do ovo ou da farinha, o cafezinho que se bebe em conjunto, as iguarias que a melhor cozinheira distribui pelas diferentes casas, o arranjar da ficha, do computador ou do vídeo…

Há o estremecer com as alegrias e as tristezas de cada uma, os sustos e os sobressaltos, as boleias e a certeza constante de uma presença nas nossas vidas.
OBRIGADA, VIZINHAS!

PEDIBUS, UMA SOLUÇÃO!

De acordo com notícias recentes, na imprensa escrita e nos telejornais, em Lisboa, está a pegar a moda do Pedibus, moda que me pareceu muito curiosa.
Nascida na Austrália, na década de noventa, com a finalidade de reduzir o tráfego automóvel, a ideia tem vindo a ser acarinhada e posta em prática em vários países europeus. Está na ordem do dia, entre nós, tendo em conta, por um lado, os sucessivos e abusivos aumentos do preço dos combustíveis e, por outro, as fracas condições de conforto e de horário, de grande parte das carreiras urbanas.

Em que consiste, então o Pedibus?
De forma espontânea, alguns pais, em diferentes bairros, organizam-se e alternadamente, são os condutores, sem máquinas potentes ou sofisticadas, mas cheios de alegria e vontade de proteger e acompanhar as crianças mais pequenas, no percurso para a escola e no de regresso a casa. Até têm paragens devidamente assinaladas por onde passam e recolhem os miúdos que em conjunto se sentem mais protegidos, bem-dispostos e com mais vontade de ir aprender coisas novas. Sempre há uma conversa, umas risadas, uma cumplicidade, uma anedota, uma dúvida escolar esclarecida à última hora…
Muitos usam bonés e coletes coloridos para melhor se reconhecerem, sentindo-se verdadeiros elementos de uma de equipa.
A Câmara Municipal apoiou a ideia, organizou um manual do Pedibus e vai enviá-lo a todas as escolas, para ver se a ideia acaba por contagiar outros pais e alunos.

Tudo isto me trouxe à memória as minhas idas para a escola primária, que também foi feita, em grande parte, a pé, ora acompanhada pela minha irmã mais crescida, ora levada por uma vizinha que vivia no andar de baixo e que se oferecia para me levar, já que a minha escola ficava no seu trajecto para o trabalho.
E trouxe-me à memória o calor e a segurança que a minha pequena mão sentia na mão que me conduzia.
E como eu ia feliz para a escola! Sempre!