Mais uma das nossas escritoras de referência, sobretudo para quem trabalhou com crianças e adolescentes, faleceu esta manhã – Matilde Rosa Araújo. Para lá da ternura dos textos, cheios de imagens belíssimas que pareciam música para os nossos ouvidos, guardo a recordação de várias histórias em que focava de uma maneira muito doce mas sempre acutilante os problemas sociais e defendia os mais desfavorecidos. Muitas vezes me cruzei com ela em encontros de escritores para os mais novos, na Gulbenkian ou na Feira do Livro, por exemplo.
No entanto o que recordo com maior ternura e admiração é o contacto daquela figurinha muito magra, muito mignone que ia às escolas, sempre solícita, quando a convidávamos para uns Tu cá Tu lá com os alunos. Entrava, quase pedindo desculpa por existir, cumprimentava todos de forma muito singela, um sorriso doce, doce e, no momento em que começava a conversar com os miúdos, transfigurava-se, crescia e era mágico.
Os alunos diziam que parecia uma avó, tão próxima a sentiam. Depois, a voz ganhava força, as imagens ganhavam corpo e nós todos juntos levados por ela voávamos nas asas de toda a fantasia. Aí descobríamos personagens bem contornadas, experimentávamos sensações únicas, deslumbrávamo-nos com uma imaginação doce e perturbadora. E não me lembro de alguma vez ter abordado a poesia com os meus alunos mais novos sem me socorrer das sua rimas, dos seus pequenos poemas. Era sucesso garantido. Ninguém lhe ficava indiferente e todos a queriam recitar. E o olhar azul, transparente e límpido da Matilde era bem o espelho de uma grande alma sensível. Era uma pessoa muito especial que nos vai fazer falta, ficam os livros que espero continuem nas mãos de muitos alunos.
Sabia-a adoentada e enfraquecida já há um tempo mas tinha ouvido dizer que estava para sair mais um livro seu. E foi realmente anunciada, lá mais para o final do ano, a publicação do livro “Florinda e o Pai Natal” editora Calendário de Letras. Vai ser bom voltar a lê-la com o fascínio do Natal. A não esquecer.