segunda-feira, 31 de agosto de 2009

MAL-ENTENDIDOS

Li uma crónica de Mia Couto que achei curiosa e me apeteceu, no essencial, divulgar. Foi publicada no número de Agosto da revista “Africa21”, sob o título, “A Cobertura”. Trata de um mal-entendido que ocorreu quando era jornalista ao serviço do Ministério de Informação, no tempo da Revolução marxista em Moçambique.

“ … Numa dada manhã, fui mandado cobrir um comício num bairro suburbano. Seguia num carro do M.de Informação, um Mercedes preto cheio de aparência, mas pobre e pobre por dentro. …. No caminho, deparei com um colega da rádio, um jornalista de origem goesa que caminhava penosamente com o mesmo destino. Era Tiago, a mais tímida criatura que conheci em toda a minha vida. Ofereci-lhe boleia.
Uma multidão se acumulava num descampado e, ao depararem com a nossa viatura, abriram-se alas e um coro de saudações ascendeu aos céus. De imediato entendi : tomavam-nos pelos dirigentes que viriam orientar o encontro.
Ficámos eu e o Tiago rodeados por manifestações de júbilo até que o motorista nos abriu as portas, confirmando, aos olhos da multidão, o nosso estatuto de chefia. Os responsáveis políticos do bairro nos rodearam com infindáveis vénias e encaminharam-nos para o palanque que, como altar divino, se erguia mais à frente. O ruído era ensurdecedor e os cantos revolucionários não permitiram que nenhum dos anfitriões pudesse escutar as minhas atrapalhadas explicações. …. Num ápice e sem poder reagir, eu e o tímido Tiago, nos vimos sentados nas grandes cadeiras de espaldar destinadas aos dirigentes revolucionários . No segundo seguinte o dirigente de bairro pedia à multidão o máximo silêncio para que pudessem escutar “as sábias orientações dos nossos responsáveis máximos”. Foi Tiago chamado a proceder a uma solene alocução. Ele estava sendo confundido com um dos vários dirigentes da Frelimo que possuíam origem goesa. …. “ Nós não somos …, começou ele, e repetiu várias vezes : nós não somos …” . E logo o dinamizador do comício atacou com mais uma série de vivas. …. Tiago malbuciou : “É que nós vimos aqui para fazer a cobertura” . E novo silêncio. De repente, alguém da multidão quebrou o embaraço : “ a cobertura, finalmente vão fazer a cobertura !”. E uma excitada gritaria percorreu os populares como um arrepio. E brados ecoaram, em festa : “ a cobertura, vão fazer a cobertura …”.
Nesse instante, se escutaram as sirenes. Chegavam os verdadeiros responsáveis políticos. Os presentes se entreolharam espantados. O seu bairro merecia a presença duplicada de dirigentes ? …. Ficámos eu e o Tiago abandonados no palco. Aproveitámos o momento para nos esgueirarmos. Quando já entrávamos para o carro ainda escutámos pessoas festejando a chegada da cobertura .”

E é assim que lá como cá, se escutam nos comícios o que queremos ouvir!

Gosto muito de Mia Couto, mesmo antes de saber que lhe chamam “Mia” desde pequeno por gostar muito de gatos …

domingo, 30 de agosto de 2009

VIVA A VIDA 18


Carl Pilcher, director do Instituto de Astrobiologia da NASA, acredita que «a vida no universo é mais comum do que parece» . Esta opinião apoia-se na descoberta de glicina, elemento fundamental para a formação da vida, em amostras do cometa Wild 2 trazidos à Terra pela sonda Stardust, em 2006, revelou segunda-feira passada o Laboratório de Propulsão a Jacto (JPL). “A glicina é um aminoácido utilizado pelos organismos vivos para produzir proteínas e esta é a primeira vez que se encontra num cometa”, disse Jamie Elsina, do Centro de Voos Espaciais da agência espacial norte-americana.“A nossa descoberta apoia a teoria de que alguns ingredientes da vida surgiram no espaço e chegaram à Terra através do impacte de meteoritos e cometas”, acrescenta o comunicado do JPL. A sonda Stardust passou através de uma densa nuvem de poeiras e gases que rodeavam o núcleo de gelo do Wild 2 em Janeiro de 2004. Desde 2006 que tinham sido detectadas amostras de glicina, mas os cientistas admitiram que o aminoácido pudesse ter aparecido no momento de fabrico da cápsula e só agora conseguiram ter a certeza de que pertencia ao cometa.

Pois é, a pouco e pouco, os segredos da Vida no Universo vão-se revelando.
Com certeza, não estamos sós!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Havana, Cidade perdida

Nada me podia ter sabido melhor, esta tarde, do que pegar num dos muitos DVD empilhados, no canto da sala, à espera de vagar e de disposição, e assistir a um filminho no remanso do meu sofá.
Hoje foi a vez de “Havana, Cidade Perdida”, filme de estreia de Andy Garcia como realizador, que me levou até Cuba, aos finais dos anos 50. E tive direito a um pouco de tudo neste misto de documentário, história de amor e filme musical.
Andy Garcia é também o protagonista. Desempenha muito bem o papel do proprietário de um night club de muito sucesso, na cidade, dividido entre a vida profissional, o amor por uma jovem e os problemas familiares. Sofre porque tem dois irmãos comprometidos com a revolução castrista com tudo o que isso implica na vida de uma família endinheirada, burguesa e tradicionalista. Quando a Revolução chega, a vida da cidade e as mentalidades são fortemente abaladas. Muitos dos ideais caem por terra e as famílias vêem-se destruídas e muito afectadas. Ninguém estava preparado para tanto!
O filme está muito bem estruturado, com uma sobreposição de planos muito feliz e bem conseguida. Trouxe-me os sons quentes da bela música cubana, a dança caribenha contagiante executada por excelentes bailarinos, as ruas e os carros típicos que cruzam a cidade num grande espavento.
Como diz, a certa altura, o protagonista, Havana é “como uma rosa, tem pétalas e tem espinhos” e serve exemplarmente de pano de fundo a esta saga familiar que tenta analisar a revolução nos seus aspectos positivos e negativos e põe em evidência a frustração do povo que aspirava por um regime verdadeiramente democrático.
No final do filme, o protagonista salienta a célebre frase de Cabrera Infante, escritor cubano e autor da obra em que se baseou o filme, ele próprio um exilado político: “Não posso ser fiel a uma causa perdida, mas posso ser fiel a uma cidade perdida”.
Apesar de ter aspectos discutíveis, é um filme muito interessante, a não perder.
Depois, faz-nos pensar e isso é sempre bom! Pela minha parte, sempre que vejo um filme deste género, fortaleço a minha convicção – sou uma democrata dos quatro costados! Malgré tout!


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Uma visita ao Museu do Oriente

Viver em Lisboa nem sempre é bom para conhecer o que de melhor existe na capital … quando há tempo livre, sai-se de Lisboa!
Foi assim que ainda não tínhamos ido ao Museu do Oriente desde a sua inauguração há mais de um ano – a 8 de Maio de 2008.
Fomos e gostamos. A exposição permanente é muito boa, quer quanto aos objectos expostos, quer na explicação e indexação de peças. É verdade que os pequenos painéis explicativos podiam estar melhor iluminados, mas acaba por se conseguir ler.
As fotos que escolhemos retiramo-las da Internet porque nos esquecemos de perguntar se era permitido fotografar.

O Museu está instalado num grande edifício na Doca de Alcântara, uma construção dos anos 30 para conservar bacalhau seco e armazenar fruta ( arquitecto João Simões), readaptada pelo atelier de João Luís Carrilho da Graça. É tutelado pela Fundação Oriente “tendo por missão a valorização dos testemunhos quer da presença portuguesa na Ásia quer das distintas culturas asiáticas”.
A exposição permanente engloba 1400 peças alusivas à presença portuguesa na Ásia e 650 peças pertencentes à colecção Kwok On (*). A primeira colecção inclui objectos de cerâmica, têxteis , mobiliário, laca, pintura e outras artes decorativas que evidenciam a relação entre as culturas asiáticas e europeias, sobretudo através de Portugal. A colecção Kwok On é considerada uma das mais importantes do género na Europa e ”testemunha as artes performativas de raiz popular e das grandes mitologias e religiões de toda a Ásia ( da Turquia ao Japão)”.
(*) A Colecção Kwok On tem origem numa doação feita, em 1971, a Jacques Pimpaneau pelo Sr. Kwok On, de um conjunto de marionetas cantonenses, instrumentos musicais, livros e objectos diversos. Esta doação viria a servir de ponto de partida para uma associação/museu fundada em Paris, o Museu Kwok On, criado por Jacques Pimpaneau que, desde logo, se propôs aumentar a colecção. Os objectos que reuniu são originários de um espaço geográfico que se estende da Turquia ao Japão e incluía, em 1999, ano em que a colecção foi doada à Fundação Oriente, mais de 10 000 peças.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Voltámos!

Aqui estamos, regressados da Costa Oeste …, “cheios” de Sol, mar, iodo e … nevoeiro + ventinho do quadrante Norte!
Eu venho de “papo cheio” de ar livre ( mesmo só nas varandas), muito espaço para correr, muitas tigelas grandes de água como eu gosto, muitos sítios para dormir sem restrições, gavetas novas para despejar, pessoas para brincar comigo … estou rejuvenescido!
Quando cheguei vi um antúrio bem maior do que é costume e ouvi a minha dona comentar que a plantinha também tinha tido as suas férias de gato e parecia bem mais linda. Se não estivesse com muito sono teria lembrado que as plantinhas tinham tido era férias de “cigarrinhos” e a atenção da vizinha do 5º andar. Mas desisti e fui dormir numa daquelas nesguinhas que me deixam e julgam que eu não aproveito.

domingo, 23 de agosto de 2009

VIVA A VIDA – 17

Referimos há tempo uma boa prática levada a cabo na Estónia : num dia, em apenas 5 horas, mais de 50 mil voluntários limparam o país. Mais tarde, a Lituânia e a Letónia desenvolveram campanhas semelhantes.
Soubemos que em Portugal se quer fazer o mesmo e já está em curso o projecto “Limpar Portugal”. O dia marcado para a acção é 20 de Março de 2010.
O repto foi lançado por Nuno Mendes, membro do LandMania Clube de Portugal e todas as informações e inscrições de voluntários se podem fazer para :
http://limparportugal.ning.com/

A campanha também se inspirou na conhecida “fábula do beija-flor” :

“Certo dia houve um incêndio numa floresta onde viviam muitos animais e todos se puseram em fuga procurando salvar-se das chamas. Somente um beija-flor voava até ao lago, apanhava algumas gotas de água e deitava-as no incêndio. Um outro animal, intrigado, perguntou: - Beija-flor, achas que vais conseguir apagar o incêndio?! - Não, claro que não, respondeu, mas estou a fazer a minha parte”.
Já tínhamos aqui falado desta fábula e da extraordinária experiência da Estónia. Fica agora a boa notícia de que, entre nós, há quem tenha dado importância à fábula e aos bons exemplos de outros. Preservar a VIDA é obrigação de todos nós.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

HARRY POTTER


Foi um impulso tardio mas resolvi ler os sete livros do Harry Potter e percebi porque é uma saga para ser apreciada por gente de todas as idades. Ainda bem que só os li depois dos sete publicados – teria sido “insuportável” a espera “do próximo”. Também compreendi quem fez fila e esperou horas para comprar cada novo volume que leu até à manhã do dia seguinte!

Recomendo-os a quem não os leu, sobretudo aos pais e avós de crianças e jovens que os tenham lido. É que, se a magia é o elemento central, os valores universais da amizade, lealdade, solidariedade, tolerância e respeito pela diferença são nota dominante.
Também é bom que “as fraquezas” dos maus sejam valorizadas para que mais facilmente se reconheçam e que se mostre como pode ser grande a queda de quem ambiciona o poder a qualquer preço ou de quem se aproveita do trabalho dos outros ou “muda de casaca” conforme os ventos favoráveis … E também lá está o jornalista oportunista e sensacionalista, que inventa e deturpa, faz chantagem e compra os fracos.
E claro, no fim, os maus são castigados, os bons são premiados e casam e são felizes para sempre – como nos contos de fadas.

Mas gostar, gostei das magias fantásticas e dos instrumentos e poções que tornariam a nossa vida num mar de rosas - que pena sermos “muggles” (gente comum)!!
Vejam só como seria bom ter um “avisoscópio” que se acende e gira logo que alguém traiçoeiro se aproxima; “botões de transporte” que nos levam em segundos para qualquer lugar; um “pensatório” onde podemos depositar as nossas recordações que se observam depois como um filme, dispensando toda a maquinaria que usamos, todo o espaço físico ocupado e garantindo uma mente fresca e leve; as varinhas mágicas com feitiços capazes de fazer aparecer a louça lavada e enviar por levitação travessas e pratos para a mesa, consertar o que se quebra ou estraga, fazer camas, passar a ferro e activar os outros feitiços; o feitiço “Patronus” que cria uma força positiva sob a forma de um animal e nos defende dos “maus” e sobretudo daqueles que nos querem sugar a alma (os “dementors”); o feitiço “Lanlock” que faz colar a língua ao céu da boca e era tão bom ter à mão para castigar certas pessoas …; a poção “Veritaserum” que obriga quem a toma a dizer a verdade; a poção “Félix Felices” que garante o êxito em tudo o que se faz (mesmo que se beba água pura convicto de que se bebe a poção…) mas, tomada em demasia, provoca vertigens, imprudência e um excesso de confiança perigoso!!!

E não seria bom podermos dispor de uma “Sala das Necessidades” – um espaço que aparece e desaparece por magia, que assume a forma e se enche do conteúdo adequado ao que precisamos num determinado momento?

E há os elfos domésticos que eu hesito em valorizar mas não resisto: são pequeninos seres fiéis aos seus amos, que fazem todo o trabalho doméstico, cozinham e ainda são mágicos!