quarta-feira, 4 de agosto de 2010

“Orações” segundo Saramago


Acabei de reler “O Memorial do Convento”. Isto de “reler” começa por me fazer sentir a perder tempo mas quando a primeira leitura foi há muito tempo há mesmo uma percepção diferente do texto. Foi o que aconteceu.
E sobre as orações que se fazem pedindo isto e aquilo e a propósito da que terá sido feita pelos frades franciscanos pedindo um herdeiro para o Rei, Saramago divaga sobre as “Orações” :

“ Nem sempre se pode ter tudo, quantas vezes pedindo isto se alcança aquilo, que esse é o mistério das orações, lançamo-las ao ar com uma intenção que é nossa, mas elas escolhem o seu próprio caminho, às vezes atrasam-se para deixar passar outras que tenham partido depois, e não é raro que algumas se acasalem, assim nascendo orações arraçadas ou mestiças, que não são nem o pai nem a mãe que tiveram, quando calha brigam, param na estrada a debater contradições, e por isso é que se pediu um rapaz e veio uma rapariga … “

Gostei da complexidade das “orações” de Saramago! Percebi a confusão que às vezes se estabelece nas nossas vidas …

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

“Sim à dependência poética”

Neste início de “férias”, termo absurdo quando se entende férias como o período de descanso anual merecido por desempenho de trabalho produtivo e quando se aplica a quem “está de férias” todo o ano, parece que o tempo sobra porque falta o Sol que devia ser de Verão e mais o calor que se espera em Agosto. Estou na “costa oeste”, onde os nevoeiros matinais se têm estendido pelo dia todo, onde, sem praia nem “banhos de sol”, se inventam coisas para fazer e se olha para o que “está ali” há imenso tempo sem reparo.
Foi o que aconteceu há pouco quando olhei para um “maço de cigarros” que em tempos se vendeu em balcões de livrarias : “ Diz sim à dependência poética”. Os cigarros são rolinhos de poemas. Fui tirando ao acaso. O primeiro era um belo poema de Miguel Torga a Guevara. Outros são de Ary dos Santos cantados e bem conhecidos, outros de Manuel Alegre, Agostinho Neto e de outros menos conhecidos mas de pendor revolucionário.

Fiquei com o de António Gedeão, tão bem cantado que foi :

“Não há machado que corte”
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que me é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre.

E acabei a fumar um verdadeiro, ao friozinho da noite, com Vénus “sozinha” no céu um pouco acima do horizonte e umas crianças “irritantes” que montaram tenda num relvado próximo e, sem frio aparente, falam, cantam e dançam …

domingo, 1 de agosto de 2010

Histórias Boas do Mundo 28

A EDP, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, vai fornecer electricidade ao maior campo de refugiados do mundo, em Kakuma, no Quénia. Com este projecto cerca de 100 mil refugiados vão ter condições para montar bombas de água e criar hortas, fazer reflorestação, ter iluminação adequada, segurança, melhores condições nas escolas …
Os primeiros painéis solares estão a ser montados e o projecto estará completo até ao fim do ano. Do êxito deste projecto dependerá a implementação de novas bandas de painéis solares noutros campos de refugiados – já há consultores a estudar condições de implantação nos mais de 300 campos de refugiados existentes.

Finalmente foi inaugurado, no dia 30, o Museu do CÔA, depois de 15 anos de promessas e 7 ministros da cultura!
É o segundo maior museu do País, ultrapassado em área pelo Museu de Arte Antiga de Lisboa. Construído “ em gruta” disfarçada na paisagem foi concebido para nos “ dar uma ideia da imensidão e diversidade da arte rupestre do Côa “ - para visitar lá mais para o Outono …

SÃO HISTÓRIAS BOAS NUM VERÃO QUENTE e cheio de histórias más de incêndios ateados, quase sempre, por incúria ou malvadez.

Nota : Encontrei esta foto numa reportagem sobre Kakuma, com a legenda que se transcreve :

“Meu nome é Geedi. Eu sou somali, mas nunca estive na Somália. Eu tenho um pai, mas eu nunca o vi. Eu não moro em uma aldeia, nem em uma cidade. Eu moro em um campo de refugiados. Não existem cercas de verdade ao redor do lugar onde moro. Mas eu nunca saí daqui.”

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Vila do Conde – barco de luz e pedra

Como uma das nossas amigas tinha estado há dias em Vila do Conde já sabíamos que era um dos sítios que visitaríamos no fim de semana passado no Porto. O que não tínhamos imaginado é que a cidade tivesse um património tão diversificado, tão rico e tão bem preservado. Não visitámos tudo mas… quase! Mal chegámos a Vila do Conde, que o metro veio tornar tão próximo, admirámos o imponente Aqueduto, construído entre 1626 e 1714, e que, com os seus cerca de 900 arcos, foi erigido para abastecer de água o Convento de Santa Clara, de forma regular e menos dispendiosa.Dirigimo-nos ao Auditório Municipal - Centro de Memória, onde recebemos preciosa informação sobre tudo o que poderíamos ver naquela tarde.
Nos jardins do Auditório e no interior visitámos a exposição de Jorge Curval, muito marcada pela presença de árvores e de placas de cortiça, conseguindo efeitos muito harmoniosos e interessantes. Não conhecia o artista, foi uma descoberta agradávelPasseámos pelos espaços envolventes. Tudo muito calmo, tudo muito harmonioso, tudo muito cuidado, o que nos deu imenso prazer. E lá fomos comentando o facto de termos tanta coisa boa, bonita e bem organizada de que nos podemos e devemos orgulhar. Visitámos o Mosteiro de Santa Clara e ficámos a conhecer a sua história. Segundo reza a tradição, este museu nasceu duma luta acesa e intrigante em que se envolveram a Rainha Santa Isabel e o filho bastardo de D. Dinis, Afonso Sanches. Data de 1318 e corresponde à concretização de um sonho que, juntamente com sua mulher, D Teresa Martins, D. Afonso teve, no regresso de uma peregrinação a S. Tiago de Compostela. Foi reconstruído no séc. XVIII e hoje domina de forma imponente a cidade de Vila do Conde. Pena que o património artístico do Convento tenha sido delapidado e roubado ao longo dos últimos decénios deixando quase vazio um dos mais ricos monumentos da península. Ouvimos, no local, falar de muitos projectos para reabilitar e animar este convento, mas só o tempo dirá o que será possível fazer deste maravilhoso edifício. Ainda tivemos tempo para visitar a Casa de José Régio e contactar com o valioso acervo artístico que o escritor reuniu na casa que, por herança da madrinha Libânia, passou para o seu pai e, por morte deste, para José Régio, que lhe sucede, como único proprietário. De referir a excelente Biblioteca em que, além de valiosas obras literárias, reúne uma rara série de primeiras edições dos mais notáveis escritores portugueses da primeira parte do século XX, bem como manuscritos seus e milhares de cartas que recebeu. Nesta casa-museu, que funciona uma sala de exposições temporárias e actividades para a divulgação da vida e obra do poeta pudemos ainda assistir a um interessante diaporama que introduz os visitantes à pessoa e à obra de José Régio. Visita muito interessante, mesmo.Descemos à zona ribeirinha, deliciámo-nos com as águas do rio Ave, a zona portuária e o forte de S. João Baptista. O tempo fugia e nós tínhamos de regressar ao Porto mas ficou tanto ainda por ver. Fica a promessa de que havemos de voltar, vale bem a pena!
Não deixámos Vila do Conde sem parar numa pastelaria e provar os vários doces da região, óptimos como quase toda a nossa riquíssima doçaria tradicional.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

As minhas horas de recreio

Andei muito tempo a queixar-me de falta de espaço livre mas agora conquistei terreno : com uma trela de 5m e uma dona paciente, ando escada abaixo e acima, sozinho. De vez em quando dou um miau para saber que “ela” “está lá” e “vem cá”, fazer-me uma festa, dizer um olá, endireitar a trela que se enrola aqui e ali. A porta fica entreaberta e eu posso entrar e sair, “vigiar” … Às vezes ainda tenho mais sorte e a minha dona leva-me ao rés-do-chão ou às vizinhas do 2º e do 5º andar.
Sinto-me mais livre e aprendi que “ é preciso gostar do que se pode ter e fazer”.

domingo, 25 de julho de 2010

Histórias Boas do Mundo 27


Desde sempre nos foi posta a grande dúvida : “ Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha ?”
Parecia um paradoxo, um enigma … afinal foi uma hipótese de investigação !!

E “JÁ SE SABE” : QUEM NASCEU PRIMEIRO FOI A GALINHA.
Não parece uma Boa História?

Aqui vai a explicação que li na “Ciência Hoje” :

Investigadores das Universidades de Sheffield e Warwich, no Reino Unido, concluíram que “ a galinha apareceu antes, na medida em que a formação da casca do ovo depende de uma proteína que só é encontrada nos ovários deste tipo de ave. Assim sendo, o ovo só pôde existir depois de ter surgido a primeira galinha “ …
“A proteína em questão - ovocledidin-17 (OC-17) - actua como um catalisador para acelerar o desenvolvimento e cristalização da casca, cuja estrutura rígida é necessária para abrigar a gema e os seus fluidos de protecção, enquanto o pinto se desenvolve.
Nesta investigação foi utilizado um super computador – HECTOR - para visualizar de forma ampliada a formação de um ovo. Este indicou que a OC-17 é fundamental no inicio da formação da casca, pois transforma o carbonato de cálcio em cristais de calcite, que compõem a casa do ovo”

Como desconfio destes cientistas e da conclusão escolhi uma segunda Boa História : Maria Bethânia cantou em Portugal, no dia 22 em Cascais, ontem no Porto. O espectáculo tem um título : “Amor, Festa, Devoção”.

De Bethânia, escolhi um tema antigo : “ O doce mistério da vida”, precedido por um poema de Fernando Pessoa.
E … “ mistério da Vida” deve continuar a ser esse de quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo !

sexta-feira, 23 de julho de 2010

“Estudos de Mercado” …


Chamada da “ Marktest” :

-“Sou …. Gostaria que me respondesse a algumas questões sobre a actualidade … política, temas sociais, interesses …
- “Muito bem”
- “ Qual é a sua idade?”
- “ 60 anos”
- “ Peço desculpa mas, não há aí em casa ninguém mais novo?”

Interessante … Os mais velhos, que viveram muitas e variadas experiências, que tiveram tempo para errar e corrigir, que foram transformando saberes em alguma Sabedoria, não contam em estudos de mercado “sobre questões da actualidade” !!

E pensar que a menina- funcionária da Mark-test e os senhores que lhe encomendaram o estudo têm o mesmo direito de voto do que eu?! Será justo?

Que tal uma ponderação do sentido de voto tendo em atenção a maior idade?
Aí está uma alteração na Constituição que deveria ser considerada …