Gostava de saber o seu nome mas ela não disse. É conhecida e quer ser chamada “ tia preta” ou “mãe preta”.
( Preta ou negra? É que negra seria mais correcto – “preto é carvão” – disse-me um dia um amigo negro)
A “tia preta” tem um rosto suave e bonito, uma cabeleira branca, uma voz nítida e a palavra fácil. Sem filhos, começou por criar os sobrinhos que lhe traziam para casa os amigos. Em passeios com eles num parque da cidade, recolheu o Rui, o seu “amado filho” – tinha 15 anos e era “menino da rua”, tem 44 agora, é casado, tem filhos e profissão. Outras crianças e jovens, brancos e negros, foram aparecendo em casa. Comiam, pediam carinho e ajuda, iam depois para suas casas ou ficavam “ dormindo por lá” – sem família ou com famílias desestruturadas, ninguém se importava com eles. Um outro “filho”, menino branco rebelde de uma família com 24 elementos, ficou por lá – hoje ajuda e é “o braço direito”. A “tia preta” alimenta todos. Educa, acarinha. Ensina a cooperação, a solidariedade, a partilha. Vive num T2 – um cobertor, uma almofada, um sofá, o chão, “todos se ajeitam”. É a “tia preta” !
Não percebi se trabalha ainda, se vive de uma reforma. O que tem, dá. Recebe, desde há pouco tempo, umas ajudas em géneros. Não se queixa, não pede nada.
Porque é que é assim? Diz que os pais a ensinaram a dar. Cresceu numa família feliz, numa família alargada onde cabiam sobrinhos, primos, avós, amigos – como é próprio de um lar tradicional africano.
Que pena não sabermos dar mais notícias de tantos exemplos de solidariedade e Amor!
Apeteceu-me falar deste exemplo enquanto “via” ( sem som), mais um programa em que só se fala do que está mal. Não podia a televisão pública fazer um programa “só do que está bem”? Um programa que espalhasse a “boa nova” daqueles que contornam obstáculos e ajudam os outros ajudando-se a si mesmos?
Sinto falta de algum equilíbrio na imagem que nos dão da Humanidade do séc.XXI .
1 comentário:
Como gostei da postagem!
Mto boa.
Abraço.
isa.
Enviar um comentário