quinta-feira, 31 de julho de 2008

REINALDO FERREIRA

Não sei porque é que ontem, enquanto lia um jornal, dei um pulo e fui procurar o livro “Poemas” de Reinaldo Ferreira. Foi com ele que, há muitos anos, aprendi a gostar de poesia – algures, nos anos 60. Lia, relia e sabia de cor muitos dos seus poemas. Foi a partir daí que li, com gosto, outros poetas mas, sobretudo, outros poemas. Como não tenho conhecimentos literários fundamentados, a poesia e a prosa interessam-me pelo conteúdo e pelo prazer da leitura, muito mais do que pela forma.
Reinaldo Ferreira é um poeta pouco conhecido mas muito admirado por quem viveu em Moçambique e conviveu com ele em Lourenço Marques (Maputo). A edição em livro só aconteceu depois da sua morte – aos 37 anos, com cancro no pulmão. Conheci-o como pessoa através de um amigo que o acompanhava frequentemente no café “Scala”. Na mesa, havia sempre uma cadeira reservada a um permanente “ amigo invisível” que sempre o acompanhava.

Dos muitos poemas de que gosto, escolhi dois:

Das “poesias de amores fictícios”:


“Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado:
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto …
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é …



RECEITA PARA FAZER UM HERÓI

Tome-se um homem.
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto “

1 comentário:

Fevereiro disse...

Poesia e prosa para mim também é assim, antes de mais nada, para se sentir. Embora eu seja de Moçambique não ouvi falar deste poeta, era pequena demais quando saí de lá.
Beijinho.