quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A REAL FÁBRICA DE GELO na Serra de Montejunto

O acesso fácil que hoje temos ao gelo e aos gelados, foi, desde meados do séc.XVI, obra de “muito engenho e arte” e coisa de ricos e frequentadores da corte. São reflexões e informações que se colhem depois de uma visita que fizemos ao que resta da REAL FÁBRICA DE GELO, na Serra de Montejunto - a 60 km de Lisboa, entre o Cadaval, Alcoentre, Alenquer e Vila Franca dos Francos.

A primeira utilização do gelo foi a partir de “gelo das neves”, “pouco higiénico” e de utilização muito limitada, recolhido nas Serras da Estrela e da Lousã depois de Filipe II, no séc.XVI, ter introduzido na corte o gosto pelas bebidas frescas e “gelados”. As informações que relacionam a produção de gelo à Serra de Montejunto são já do séc.XVIII, nos reinados de D.João V (1706-1750) e D. José (1750- 1777).
Consta que a REAL FÁBRICA DE GELO tenha sido construída por volta de 1741. Foi D.José que concedeu o 1º alvará de exploração a D.Catarina Ricard, a 18 de Setembro de 1750. Nesse alvará eram-lhe concedidos privilégios especiais relativamente ao transporte do gelo, desde o local de produção até ao seu destino. Mais tarde registou-se a compra e a reedificação da fábrica pelo “Neveiro de Sua Majestade”, Julião Pereira de Castro – registo que esteve afixado na porta principal do edifício dos silos.

Mas, como se produzia o gelo?
O “ complexo fabril” dividia-se em duas áreas distintas: uma para a produção do gelo e outra para a sua preparação, armazenamento e conservação.
A área destinada à produção era constituída por dois poços para captação de água, uma casa para as noras, um tanque principal para recepção de água que seguia em condutas para um conjunto de 44 tabuleiros calcários, amplos, com 10 cm de altura, destinados à congelação. Estes tanques eram cheios a partir do mês de Setembro, aguardando-se que, durante as noites muito frias, se formassem as desejadas placas de gelo.

A zona de preparação, armazenamento e conservação dispunha de 3 silos, os dois primeiros para preparação e conservação e o 3º para armazenamento. As placas de gelo eram transferidas, de madrugada, para os dois primeiros silos onde o gelo era compactado à força de maços e esforço humano. Havia todo um sistema de escoamento do gelo derretido de forma que os blocos pudessem ser transferidos em segurança para o 3º silo (o maior – com 9 metros de profundidade e 7 de diâmetro) onde, envoltos em palha, aguardavam o transporte. Todo este processo de produção e armazenamento era feito nos meses de Inverno para que, mal chegassem os primeiros calores, se procedesse ao transporte para a capital. Dessa logística e com essa responsabilidade, fora criado na corte o cargo de “Neveiro de Sua Majestade”, geralmente exercido por militares.

Uma vez retirados os blocos de gelo dos poços, eram envolvidos em fardos de palha e serapilheira e transportados no dorso de burros até ao sopé da Serra. Passavam depois para carros de bois que os transportavam até aos barcos – junto ao Carregado. Os “Barcos da Neve” tinham prioridade absoluta de circulação até Lisboa. As perdas eram muito elevadas mas o gelo que chegava era distribuído pela corte e pelos fidalgos que pudessem pagá-lo. A água gelada, servida em púcaros de barro, era muito apreciada nos salões dos fidalgos mas também se usava no tratamento de doentes e na produção de gelados para a corte.

A partir do sé.XIX, a actividade da fábrica decaiu e em 1850 fabricam-se os primeiros frigoríficos … é cómodo mas ficou tão fácil que já não tem graça… Deve ser esta falta de novidade que leva hoje à produção de gelados de sardinha, bacalhau, etc.

A Real Fábrica de Gelo foi classificada como “Monumento Nacional” em 1997 e é considerada “um caso único no mundo pela originalidade das suas estruturas e pelo razoável estado de conservação”.

Nestas férias, pode ser uma visita agradável.




3 comentários:

Isa disse...

Gostei de saber.Aliás é sempre mto
bom visitar-vos.
Abraço.
isa

Rosa dos Ventos disse...

Já tinha esta informação, agora falta mesmo ir lá...
Não estou tão longe como isso!

Abraço

ZIA disse...

Boa e fresquíssima sugestão vizinha, como se pode ver pelos posts anteriores e lembrei a geleira da casa da minha avó e o frigorífico a gás que fazia as delícias da casa de um amigo meu!
Abraço
ZIA