segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A CHINA e as imitações


Mostrei há tempo uma certa indignação pela “dobragem” de uma canção na abertura dos Jogos Olímpicos. Na altura chamaram-me a atenção para a pouca importância que o facto deve ter para os chineses dado que a contrafacção é uma actividade banal. Apeteceu-me escrever sobre o assunto mas abandonei o texto porque parecia que andava com vontade de “bater no ceguinho”. Mas agora, depois de mais uma imitação grave de chamar leite ao que não é, as práticas chinesas merecem que lhes “bata”.

A China é hoje o centro da contrafacção mundial, com mão-de-obra qualificada, disciplinada e com baixos salários (por vezes, escrava. Os métodos de produção apostam na imitação e cópia de criação dos outros, poupando no investimento necessário à inovação, nas condições de trabalho e nos direitos mínimos dos trabalhadores.
Há tempo li um artigo onde se dizia:
“ Na China tudo se copia e tudo se falsifica. A noção de cópia não tem a mesma carga que no Ocidente, pelo menos nas artes, onde copiar a obra de um mestre é expressão de apreço pelo objecto copiado – e quanto mais perfeita a imitação, melhor”. “ Na época Ming copiavam obras da época Song, e na época Qing as obras do início da época Ming, inclusivamente com o selo imperial”. Diz-se que esta apologia da “cópia melhorada” pode vir da arte da caligrafia já que várias gerações de artistas se dedicaram a reproduzir os mesmos caracteres, procurando sempre a excelência. Mas vem sobretudo de um princípio confucionista que defende “ a imitação como um dos métodos para ganhar sabedoria” …
A verdade é que na China tudo se pode copiar e piratear sendo a contrafacção um meio de sobrevivência justificado. As lojas vendem “ Gucci”, “Louis Vuitton”, “Lacoste”, porcelanas Qing e Ming,“Van Gogh’s” e outras obras de pintura ocidental ou oriental e “artistas” anunciam publicamente os seus préstimos para todo o tipo de documentação “alternativa” … Do “bacalhau” aos carros, tudo se imita com êxito e venda garantida.
Mas, além desta prática barata de imitar, a transição da China agrária para uma economia industrial e capitalista que precisa de crescer rápido para se impor ao Mundo, faz-se sem preocupações ambientais, controlo de qualidade, de regulação e respeito pela vida. E são os dentífricos e os brinquedos tóxicos, os telemóveis que explodem, os alimentos para animais, os medicamentos falsificados, …, e “agora”, o leite. Não foi bem agora porque já se sabia na China da morte de crianças antes dos Jogos Olímpicos e já havia limitações à importação de leite da China …Lá e cá, muitos se calaram. E depois, na China nascem todos os dias 44 000 crianças. E é bom não esquecer que a China é um mercado apetecível para colocar produtos ocidentais e convém não hostilizar – em Agosto, “ o consumo interno subiu 23% em relação ao ano anterior”.
Daqui a uns dias o Mundo saberá que foram castigados os responsáveis pela produção do leite adulterado, serão presos e fuzilados uns, cairão em desgraça outros. Os pais chineses que viram morrer os filhos serão autorizados a ter outro filho. A Vida continua … e eu também continuo a espreitar as lojas chinesas!

1 comentário:

Fevereiro disse...

Subscrevo a critica. Por outro lado, também eu espreito as lojas dos chineses, têm, por exemplo, caixas de plástico muito jeitosas!Contradições estas.